Precisamos inovar mais. Como?

Silvio Meira

Na entrega do Prêmio Finep de Inovação de 2011, a Presidente da República aliou sua voz às muitas que defendem, há tempos, que o país precisa inovar mais. Tomara que tal aliança se transforme em ações de governo e iniciativa privada em todos os níveis, resultando condições para que o Brasil inove mais. E talvez fosse bom definir inovação, para guiar o “inovar mais”. Precisamos inovar mais porque… “inovação é a única fonte de vantagens competitivas sustentáveis”. E inovar é… “mudar o comportamento de agentes, no mercado, como fornecedores e (ou) consumidores de qualquer coisa”. Ainda podemos recorrer a uma pergunta, feita por Martin Varsavksy… “porque os americanos dominam o mercado de software e internet”? A resposta, do próprio, é que eles têm uma “visão de mundo”. Qualquer startup do Silicon Valley (e de Boston, ou New York, ou de algumas poucas outras cidades em poucos países) está tentando resolver um “problema mundial”, da internet inteira, e não da esquina, da Califórnia ou dos EUA.

O mercado (pelo menos conceitualmente) é o mundo. É lá que precisamos mudar comportamentos, onde temos que nos diferenciar para competir de forma sustentada. Há quem defenda que criatividade, inovação e empreendedorismo são assuntos da iniciativa privada e que o Estado deve ficar tão longe disso quanto possível. Analisando exemplos como a Coréia do Norte, é fácil defender tal tese. Especialmente quando se compara a países onde o envolvimento do Estado nos assuntos privados é mínimo. No Brasil, nem uma nem outra coisa acontecem. E é preciso simplificar o país para inovar mais ou, em certos casos, para inovar. Por que?

Porque –historicamente- estamos inovando “dentro dos nossos limites”, que quase sempre nos deixam bem aquém do nosso potencial. Um exemplo? Mesmo nos limites da educação nacional, foi possível criar uma vasta rede de instituições de ciência e tecnologia povoada por professores e pesquisadores de classe mundial. Mas o relacionamento das universidades e centros de pesquisa estatais com empresas e mercado é precário, em boa parte porque os prêmios por produtividade são escassos ou inexistentes. E porque os incentivos são mais para preencher um histórico de publicações do que para contribuir para o desenvolvimento nacional, mesmo em áreas essencialmente técnicas, onde se supõe que os problemas deveriam vir do mercado e não das prateleiras das universidades. E este é só um exemplo.

É difícil inovar quando tempo e recursos que poderiam ser investidos em inovação se perdem em processos que vão contra a lógica da competição nos e pelos mercados internacionais. A grande complicação trabalhista, burocrática, regulatória e cartorial brasileira é só parte dos empecilhos nacionais à inovação. A grande dispersão nacional em torno de pequenos projetos de curto prazo, oriundos de uma dinâmica política idem, não cria encomendas estratégicas que levam a competências negociais capazes de dominar mercados internacionais por anos a fio. E isso quando temos geografia, população, economia, diversidade e complexidade que poucos têm.

É bom lembrar que nossa excelência em commodities agrícolas não é porque “em se plantando tudo dá”. Por trás de uma competência mundialmente reconhecida, houve um desenho estratégico de longo prazo e uma parceria entre o público -da Embrapa (1972) e INPE (1971) ao financiamento às safras, e o privado -uma miríade de investidores, empreendedores e empreendimentos, que levou a uma performance inimaginável se o problema tivesse sido deixado para o mercado por si só.

Em resumo, a capacidade inovadora nacional está muito aquém do potencial, quer para demandas locais, regionais ou mundiais. Mas o Executivo precisa fazer mais do que conclamar o país a inovar: tem a obrigação de liderar o desenho de um grande projeto nacional e de criar as condições para que todos, em conjunto, consigamos desenvolvê-lo. De forma inovadora.

[Uma versão deste texto foi publicada na FSP, em dezembro de 2011]

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